La Casillera del Diablo

literatura, cinema e coisas afins

“Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio.”
Franz Kafka, carta a Oscar Pollak, 1904

O ônibus vem da vila Bom Jesus, Porto Alegre. Cheio de gente feia, que não tem cheiro bom, nem conta no banco. O piso embarrado apesar de a chuva ter sido há pelo menos três dias, as caras como se vacas no matadouro. Indo. No último banco dois meninos. O maior com uma toca de lã enfiada puxada até o pescoço como andam os garotos de agora e um blusão ralo para o frio da manhã. A calça curta e um tênis daqueles bem largos com cadarços desatados. Carrega uma pasta vazia, murcha em baixo do braço. O menor tem um brinco na orelha esquerda e leva no corpo um blusão desajeitado, tecido de vó, de tricô. Eles se tapeiam o tempo todo, se apertam, gargalham e se cospem. Primeiro o maior, depois o outro. Depois o menor, e assim a cidade vai correndo atrás das janelas, as lojas abrindo, os transeuntes, os cachorros, o movimento dos carros, a ruidama toda. Algo faz o pequeno virar-se, a proximidade de um carro, e assim menos avisado, já a mercê da mão ágil do irmão enfiando-se pelo meio de suas pernas. O médio no cú. Dois segundos e o pequeno arranca do fundo uma cusparada viscosa e informe que explode no meio da cara do outro. A questão não fica encerrada. A mão grandona acerta sua boca e quando o ônibus chega afinal na Quinze vejo nos olhos do pequeno as gotas caírem espessas, enquanto a conversa avoluma entre os dois que já ansiosos batem no vidro da porta antes de ela abrir:

“ sabe ontem vendi seis!”

“ legal!”

Nada é tão vazio de sentido como o que me evoca a palavra burocrático. Nada é tão sem graça partindo daí. E daqui parto, desse recorte, desse porto dessa cidade enrodilhada nas encostas ruas becos vielas e prainhas cheias dos aromas primaveris dos Plátanos, Jacarandás, Pitangueiras e Amoras dôces e vento tão delicado. E assim permaneço atemporal sobre os dias e noites que me convidam a outras margens. Pois que vou, pois que vingo, pois que assovio e atravesso. A cidade tem suas medidas seus avatares e penso no deus, se deus há, que a criou ou desenhou ou esfacelou sua memória nessa conturbada instância de cimento aço e concretudes. Nas ruas o sol bate feito martelo na cabeça de um prego, tudo dói e tudo comprime, são os trinta graus do verão insípido e tórrido a embebedar nossas cabeças-farelo e claro, burocratizadas. Burocratizadas. Burocratizadas de beleza contabilizada nas academias e clínicas de lipoaspiração, burocratizadas nas relações cordiais estabelecidas nos corredores dos prédios, em seus elevadores, nas trocas de favores das obrigações comerciais, nas gentilezas funestas das festas elegantes, no circo de lona rasgada da grande piada que é essa vida urbanizada e civil.

 Estou farta de semideuses, diria o poeta.

Desburocratizando o protocolo, Lula serve-se de água mineral em sua posse. O país inteiro o assite. Falta-lhe o dedo mínimo, uma ausência a demarcar que no chão da fábrica, entre estilhaços de metal e pedaços de suor quedou uma parte de seu corpo. Para sempre.

Desburocratizando os escribas, Nietzsche sussurra:

“Acordai e ouvi, vós que estais sozinhos. Do futuro vêm ventos com bateres de asas secretos; e boas novas são proclamadas a ouvidos delicados. Vós que hoje estais sozinhos, vós que sois retirantes, um dia sereis o povo: de vós, que escolhestes a vós mesmos, crescerá um povo escolhido- e dele, o homem transbordante. Na verdade a terra ainda se tornará um lugar de recuperação. E já agora uma nova fragrância o envolve, trazendo salvação e nova esperança.”

Desburocratizando o poema,

O sabiá canta seu verso lacônico às quatro da manhã
O galo, preso numa gaiola no centro da cidade,
enquanto espera que algum enviado de pai de santo
o escolha para um ritual de amor e morte,
canta endiabrado no meio do dia
Despenca do vigésimo andar a cusparada de um adolescente entediado
num fim de tarde qualquer
O padre reza a derradeira missa na Catedral da Metrópole
Meu filho brinca com um trem fantasma e conversa com anjos
Nem intervenho
Tão sublime seu desvario
Tão quente esse carinho que alimento
Minha cidade
Já não estás
Já não sou
Tudo quieto
Tudo feito
Desenhado pra nunca reter
Isso de a gente sentir

 Com a gente, Sartre:

É preciso ver os homens do alto. Eu apagava a luz e me punha à janela. Eles não supunham, absolutamente, que alguém pudesse observá-los do alto. Eles cuidam da fachada, às vezes dos fundos, mas todos os efeitos são calculados para espectadores de um metro e setenta. Quem jamais refletiu sobre o formato de um chapéu-coco visto de um sexto andar ? Eles não pensam em defender os ombros e os crânios com cores vivas e tecidos vistosos, não sabem combater este grande inimigo do Humano: a perspectiva do alto para baixo. Eu me debruçava e começava a rir; afinal, onde estava essa famosa “posição ereta” de que eram tão orgulhosos ? Esmagavam-se contra a calçada, e duas longas pernas meio rastejantes saíam-lhes de sob os ombros.
A sacada de um sexto andar- eis onde eu deveria passar a vida. É preciso escorar as superioridades morais com símbolos materiais, sem o que elas se desmoronam. Ora, qual é, precisamente, minha superioridade sobre os homens ? Uma superioridade de posição, nada mais; estou colocado acima do humano que existe em mim e o contemplo. Eis porque eu gostava das torres da Notre-Dame, das plataformas da Torre Eiffel, do Sacré-Coeur, do meu sexto andar da Rue Delambre. São excelentes símbolos. Às vezes era preciso descer de novo até a rua. Para ir ao escritório, por exemplo. Sentia-me sufocar. Quando se está no mesmo nivel dos homens, é muito mais difícil vê-los como formigas; eles esbarram. Uma vez, vi um sujeito morto na rua. Caíra de borco. Tinham-no virado, sangrava. Vi seus olhos abertos e seu ar espantado e todo aquele sangue. Dizia comigo: “Isto não é nada, não é mais emocionante do que uma pintura fresca. Pintaram-lhe o nariz de vermelho, eis tudo”. Mas senti uma languidez estranha que me tomava as pernas e a nuca e desmaiei. Levaram-me a uma farmácia, deram-me sacudidelas nos ombros e me fizeram tomar uma bebida alcoólica.

Tenho voltado ao Sartre, o texto é do Muro e me surpreendeu, são contos longos, mas são daqueles que mesmo com trinta e tantas páginas lemos de uma só vez, não conseguindo largar nem para ir ao banheiro. O muro é um conceito construído pelo existencialista com o intuito de significar de variadas formas a brutalidade do limite, quer seja ele o do delírio, quer o da atuação mesma do roteiro escrito por nós no dia-pós-dia.

Tenho voltado também ao Camus e ao Italo Calvino que com certeza,  repousou no Núpcias, o Verão, e alçou vôo em seu Cidades Invisíveis. O Marrocos de Camus nas tardes quentes ou mornas de vento insinuado. O homem nas fendas, arrastando-se entre o desejo de permanecer sobrevivendo e a vontada suprema da intensidade. As cidades tantas do Calvino nas incursões de Marco Polo…Tudo vai fazendo teia.

Tenho voltado ao cinema francês, Os Amantes; Essa Noite Trinta Anos; Ascensor para o Cadafalso; Sopro no Coração, belíssimos filmes. Contemporâneos, clássicos, eternos. Todos eles estiveram em cartaz no Santander Cultural aqui em Porto Alegre em 2006! Só não viu quem não quis!

Era uma vez uma cidade.
Era uma vez um buraco.
A cidade vivia com ciúme do buraco, porque ele era muito mais fundo do que ela.
A cidade era superfície. Plana, cheia de ruas, asfalto e terra batida. Com prédios altos como a cordilheira, casas de várias janelas, casinhas de meia-água , barracos pendurados quase no céu e mais o que a gente nem imagina em cima dela. Eu sempre ficava pensando quantos quilos pesava a cidade.
Toneladas! E as coisas dentro das casas? E os guarda-roupas cheios de roupas que a gente nem usa mais, e mesmo as pessoas cheias de pensamentos e coração e fígado e rins?
 Nossa! Ah! E as barrigas gordas? Quilos e mais quilos…
       
Um dia a cidade acordou ramelenta e procurou o buraco para ver se nele havia água.
 Ela queria se lavar.
O buraco estava seco.
 A cidade ficou roxa de brava.
 
-         Ô seu falso buraco, onde se viu um buraco sem água no fundo!
 
O buraco coçou o nariz, a ponta ia pra cima e pra baixo, cada vez mais encarnada.
 
-         Cidadezinha agressiva! Não vê que parou de chover há muitos anos por aqui! E toda a água secou!
 
-         Você poderia ao menos ter guardado um pouco para mim!
 
-         Além de tudo é egoísta, você!
 
E assim passavam os dias, a cidade e o buraco. As vozes se ouvindo de longe, movimentavam as mãos de cá pra lá, de lá pra cá. Abriam bem a boca, a cidade com os dentes brancos; o buraco, apenas com a língua dentro, empenhada em fazer as palavras saírem assim mesmo do jeito que eram pensadas.
Os dias eram assim.
 
Mas quando a noite chegava do outro lado do mundo cansada pedindo colo…
 
A cidade aproximava-se e, mansinha, bem devagar, como um gato trilhando o muro,
 
-         Posso ficar contigo uns minutos segundinhos? Ah deixa, deixa! Eu, eu estou com um pouco de medo. O escuro!
 
-         Escuro? ! Mas você é cheia de postes de luz. Olha só! Você é bonita vista de cima, tanta luzinha piscando, em movimento, luzinha parada, verde, vermelha, branca e até mesmo luz sem cor!
 
-         Isso vendo de longe, resmunga a cidade, o beiço ficando grande. Posso segurar na tua mão?
 
-         Segura logo, vai. De perto é diferente?
 
-         Tu não vê, não? Bem de perto, olhando bem encostadinho… é diferente, é tudo sem cor, melhor dizendo, é tudo escuridão. Disso que tenho medo… Medo do que vejo atrás dessa luz.
 
-         Atrás da luz? Como assim? A essa altura o buraco está com sono. Vê as luzes bem ao longe, a cidade, os pontinhos. O movimento parando.
 
-         Não vou te explicar agora, assim com medo não rola, fico gaga, fico tonta, fico boba e já me perco. Mas deixa eu dormir no teu fundo.
 
A cidade aquietou e, fechando o olho, apagou mais um pedaço de si.
 

O buraco, continente, desgrenhado segura na mão  a cidade e, num carinho, diz-lhe ao ouvido, dorme agora, amanhã a gente vê.

A CIDADE E O BURACO foi escrita a quatro mãos. Meu filho gostou tanto que prometeu mais. Aguardem.

 
 Correria escada abaixo, não raro, empurrões, meninos com bolas na mão, as gurias já de baton, estridentes.
 Saída de Escola. No ponto de ônibus, o garoto acomodado na cadeira de rodas tem entre os dedos  uma pilha de figurinhas do Campeonato Brasileiro. Surpreendo-o com uma lágrima escorrendo. Nem disfarcei, ele sorriu.
 Lembrei do meu filho fazendo gol, disputando bola, canela roxa, suado e com chulé.
 Ainda bem que veio o ônibus e entrei.

Não tinha mais que 12, o menino. Boné da nike, mochila da nike, camiseta da nike. Tênis, também. Ao observar que fixara meu olho no dele, abriu um sorriso. Dentes, nenhum.

Há 23 anos a livraria abriu. No meio do Moinhos de Vento surgem juntos  o elevador panorâmico do Quinta Avenida e a Prosa i Verso. Íamos até lá para tomar o elevador e, naquela transparência de aquário móvel, descortinarmos a cidade que de longe parecia quieta, os morros ainda sem a expansão imperiosa das atuais edificações; mas íamos, sobretudo, pela Livraria que já na entrada posicionava com bom gosto os volumes entre as estantes de madeira em meio a quadros e outros objetos de arte. Adentrar e encostar os dedos nas lombadas grossas, pegar na mão um exemplar raro, contornar a escada plantada no meio da loja, fixar o olho n’algum postal e, se desse, adquirir um livro com a coruja-marcador aninhando-se confortável entre as folhas, era a grande coisa. Pois a Prosa i Verso vai fechar sua porta de vidro nessa semana, não mais olharemos através do aquário as belas capas dos volumes tantos, muito menos entraremos para um papo com a simpática e culta vendedora. Afinal quem lê? Quem entra em livraria, não raro procura aqueles queijos e monges e felicidades outras, quem entra em livraria consome shopping e só entra na Cultura e na Saraiva porque está nas cercanias mesmo. Fiquei sabendo por acaso do  fechamento da Prosa e varri como deu tudo o que pude, adquirí algumas coisas que me acompanharão no meu próximo exílio; sim, vou sumir, ando cheia de tanta mediocridade, tanto barulho pra muito pouco, tanta gente no topo sem a menor consistência. Arre!

Gosto sobretudo dos domingos sombrios, de vento pouco, mas plenos do cinza fogão à lenha na cozinha ampla, o gato enrodilhado, domingos plenos de tons do preto ao branco, o céu austral. Gosto sobretudo do conforto da casa, o tempo escasso, o tempo bêbado, num sempre voluntarioso, migalha que me volta sobre os ombros acostumados às cargas, cargas lívidas, incorporadas ao quente de dentro, é, aqui dentro é quente, licoroso, consciente, inconsistente. Gosto sobretudo da idéia da convivência silenciosa de quem à distância se encontra e está dentro também.

A parede já foi azul, também foi branca, já foi tijolo apenas. Agora ruiu. Fez estrondo, barulhou, amarelo. Deixou antever o que não há, o que não é.

Observo o tempo. Ele é quieto, de barulho ausente. Tão quieto que não durmo, tamanho efeito. Insone percorro o século, uma árvore-semente fruta suas flores, um cavalo alça suas patas na coxilha, a crina ondulada ferve a cena, liberdade, a criança estreita a mãozinha quente na figura da revista, um vovô de óculos debruçado na estante lhe conta da vida. A vida. Árdua, dura, bela, sem sentido infinita nostálgica e algoz. Penso no universo, no brilho das estrelas há muito inexistentes, penso nos catres sujos dos cárceres e nas inoportunas solidões, penso nos leitos dos hospitais dos ricos brancos, suas enfermeiras pós-modernas e nos buracos onde os ninguéns são jogados quando morrem, penso que tudo é igual passado um tempo. O tempo de cada um.

Volto a me interessar pelo mundo. Volto a escutar a música como antes, vou dissociando os instrumentos, deixando-os em compartimentos separados, primeiro o baixo aproxima-se e num primeiríssimo plano fica garantindo tom a tom o desvario da guitarra que como uma pedra-de-raio rompe a via, fazendo buracos que não se enxergam céu a fora, depois o mesmo baixo, como alguém que sabe o que precisa ser feito, recolhe seu corpo de lógica para que os teclados, mais tarde os metais, em solos impressionistas devolvam ao montante de composições paralelas, cada instrumento na sua rota, a própria idéia de música, a própria idéia de vida…Acreditem, estou de volta. O corpo ainda dói, os olhos ardem como se alguém, ao invés de um colírio, houvesse neles polvilhado de um sal. Mas posso ouvir o coração, bongô de pele sonora, batendo aqui em cima próximo à garganta, tocado pelo meu desejo indefectível de acordar. Meu sexo sobe.Isidoro foi internado no Hospital Psiquiátrico da cidade, após ter subido numa mesa de bar, a noite é uma imensa composição desesperada, estamos a beber qualquer coisa que nos faça valer a ilusão, ilusão de amor, de comida nos pratos, de homens honestos, estamos queimando, o inferno é aqui. Da mesa, ao balcão, derrubou todas as garrafas, copos, cinzeiros e o que mais estava por perto. Do bar ao hospício, algumas ruas.Os braços imobilizados pela camisa-de-força. Ela grudava no corpo, na cara do meu desespero. Uma cara vazia, sem nariz, sem olhos, sem orelhas. Apenas a grande boca que me engolia e depois vomitava uns pedaços de carne, dedos e exortações de memória. Tentava juntá-los, os pedaços, os que ainda não tinham escapado para o nada. As esquinas passavam, eu no carro, os postes de luz inclinados sobre mim, os letreiros das lojas transformando-se em legiões de formigas que migravam lentas para dentro do meu cérebro, pontilhando o corpo cinzento como morcegos infestando a cidade antes de um temporal, os semáforos, os olhos do mundo, a sirene amputando meus pulsos, rompia-se o cordão: minha demência custara quinze doses de gim.Não consigo encontrar a artéria, comentou a enfermeira, arrumando o cabelo que lhe caía no olho. Em que estado ficou esse, decerto já era louco, louco de nascença, também tive um primo assim, um dia saiu de casa com um livro na mão, nunca mais voltou.A sala, três metros por dois. Azulejos brancos chegando ao teto, uma basculante emperrada. A cama de ferro, também branca. Isidoro envolvido por bandagens é o outro móvel do quarto. Um ponto vermelho ofusca-lhe a visão. O foco da lanterna no fundo do olho. Procuram pelo homem de antes do bar. Isidoro sente o líquido áspero entrando no braço. O caminho de volta?, consegue gritar. Acompanha o percurso. Longas rodovias no deserto sem sombra, sem deus. Tenta qualquer coisa como pedir água ou paz. A boca não se mexe. A dor lhe esculpe a cara, desbastando, ferindo. Não vê mais nada. A enfermeira suspira. Enfim dormiu, amanhã talvez melhore, mas isso não tem cura, a vida não tem cura. Olha o relógio em seu pulso esquerdo. Um menino, pensa. O que importava? Era mais um. Mais um condenado aos súbitos desvios do traçado. Vou tomar um café. Mariana sai do quarto. Encontra o rato no corredor. Não se assusta como antes. O rato é manso e quer apenas sua dose diária de lítio. Mariana antecipa a cena que já viu cento e duas vezes, o rato sobe pelos pés da cama, trilha por cima do lençol, equilibra-se no braço estendido, fuça, cheira a ampola do soro e crava o dente na conexão do plástico com a pele. Isidoro mexe-se. Abre os olhos. Vê a gota do remédio no dente do rato. Um flash o leva de volta ao bar.