La Casillera del Diablo

literatura, cinema e coisas afins

Observo meu filho. Ele dorme há algum tempo. Como sempre, não escovou os dentes depois da janta. Resolvi, pelo menos hoje, não entrar em guerra com o garoto rebelde e a gorda placa de bactérias instalada comodamente em sua boca. Tem no rosto o início de um sonho, respira mais ofegante, mexe os olhos entre os grandes cílios e balbucia algo que não entendo (lembro de quando minha mãe dizia que eu falava muito enquanto dormia, talvez o fizesse porque tinha medo do escuro, dos estalos do madeirame da casa, do nada que me espreitava de dentro do travesseiro de penas de ganso, a fronha babada, talvez falasse para espantar o habitante da lua com quem mantinha uma relação de amor e pânico). Mas o papo é outro, meu filho continua o monólogo, agora em rítmo e intensidade de câmara acelerada. Identifico no meio do transe “não, não, não mata !” e ao escutar aquilo, assim implorado, eu me aproximo. Sinto-lhe o calor e o cheiro bom de criança dormindo. Deve me ter percebido, a proximidade do lábio que lhe diz: calma, filho, o coração disparado, meu cheiro, a conexão do primevo contato, a memória revisitada, enquanto vive sabe-se lá que terror,” não mata, não”. Rápido como um gato, alcança minha mão, sou um porto na tensão da história que é só dele.

Mão-na-mão, a coberta quentinha, a penumbra macia do quarto. Amanhece. Observo seus olhos, estão quietos, observo o menino rebelde que sente medo e pede carinho, observo-o crescer. Ele empunha a vida com a minha mão na dele, barganha um lugar no mundo e atravessa a ventania, descobre o sol depois do temporal, olha o horizonte de belíssimas cores e acorda quando o gato amarelo enrodilha-se junto a seu corpo na dobra do lençol.

Quieta movimento-me nua sob o lençolObservo o cheiro do café e da torrada repartida,

a diagonal

Quieta escuto Simão, o gato, atucanar a mosca azul

Não quero

mas o marulho da rua

o desvario da rua

a incógnita da rua

Não quero

mas Simão insiste

a mosca amarelou

Permanecer aquietado e continuar brincando de sentir a pele nua no lençol delicado delicados movimentos na precisão do instante na profusão do cheiro de café ali na cozinha e a torrada repartida na diagonal em meio a toalha xadrezinha

Porto Alegre há mais de 20 anos tem no ar as ondas moduladas da http://www2.uol.com.br/ipanema/. Eu costumava ouvi-la ininterruptamente até que fui me voltando para outras vias e chegou  o trabalho, as coisas de famíla crescendo e … desliguei o rádio. Por circunstâncias várias começo outra vez a sintonizar os 94.9 e eis-me participando do programa domingueiro conduzido bem-humoradamente pela Mary Mezzari. “Churrasquinho” é o que dá o tom  entre o teu almoço em casa ou n’algum lugarzinho legal e o aparelhinho democrático, o rádio, que não é avarento e esnobe como a TV. Bueno, a gente vai escutando boa música, comentários sobre a vida e vai sendo convidada a escrever uma teoria sobre o porquê a Bavaria Premium é tão especial. A Bavaria patrocina o programa e presenteia a quem escrever algo interessante sobre sua composição. Pois eu escrevi e ganhei 24 latinhas. Detalhe, bem geladas. Valeu Mary. Valeu Ipanema.

A teoria:

A Bavaria Premium é especial porque  elaborada com o mais puro malte, extraído dos campos ondulados das terras do norte. Seu cultivo remete aos tempos míticos dos vikings, cuja tradição era, a cada viagem bem suscedida, ou seja, a cada porto conquistado, invocar ao deus maior “Bavarium” para que pelos tempos afora a cerveja mantivesse espesso, o colarinho; balsâmico, o acento e feliz o povo em seu entorno! 

Na velocidade do mundo

O tempo

Abstração dos segundos

No talhe do vento

Reencontrei o poeminha acima entremeado a outros tantos mais alguns rabiscos e aquarelas feitos num fim de semana chuvarento nos anos 80 numa praia daqui do sul. E encontrá-lo depois de ter lido o Ronald Augusto no seu bom http://poesia-pau.zip.net me faz render-lhe uma pequena homenagem pelo que escreve em seu blog.

Lilás contorno de espumas,

o mar de uma janela

A começar pelo título, ou pela tradução que do original fizeram, já é uma delícia ouvir esse “Balzac e a Costureirinha”…

Tem no filme um encanto, meio escondido, como os pedaçinhos de panos bordados e os dedais e as agulhas nos costureiros de palha das avós ou das madrinhas, ou aquele do costureiro oriental. Tem algo de música e de fato o há, Mozart entremeia e ora protagoniza a trilha em algumas cenas. Tem algo de adolescente na construção, o trio, as descobertas, muito mais do amor do que propriamente do sexo. Tem generosidade nas recordações dos meninos protagonistas, algum tempo depois, já adultos.Tem atualidade o cansativo e doutrinamento estúpido da época de Mao, não é diferente, hoje, no centro da direita, no centro da esquerda. Tem a gente dentro de nós mesmos, quando a luz acende na sala de projeção e a imagem da tela se vai. Ah! tem sobre tudo isso, a literatura. Libertária, desgrenhada, pequeno colibri que colhe, sorve e esparrama o nectar pelo inusitado jardim. Tem espontaneidade na atuação dos atores. Tem rítmo, o filme, cor e as belíssimas paisagens do Tibet.

 

Gostaría de poder assistí-los, a todos. Simplesmente não dá. As férias acabaram e os horários nem sempre calham com o funesto mundo do trabalho. Então contentei-me com o encarte bonito comprado a R$2,00 na Casa de Cultura Mário Quintana http://www.ccmq.rs.gov.br e mergulhei literalmente nas sinopses dos filmes, escolhendo alguns para ter uma idéia abrangente da mostra:

O Romeno “A Leste de Bucareste”, tem um pé na comédia, outro no drama, e foi conduzido muito bem pelo Corneliu Porumboiu. O cara manteve a intensidade na pele enrugada do professor de história, bêbado e endividado, personagem honesto e foco da questão sobre a existência ou não da revolução de 1989 que executou o ditador Ceausescu. O ponto alto da narrativa é a entrevista na precária televisão onde o professor e um velho aposentado dão seus depoimentos e são questionados por telespectadores movidos pelas mais diversas causas. O nonsense aqui ganha o filme. A trilha lembra as composições de Goran Bregovic e o filme tem sim algo de “Underground”.

 ”A Vaca Nupcial”, segundo o encarte, uma comédia romântica, produção entre Alemanha e Suiça. Primeiro longa do Tomi Streiff, um simpático suiço, com os cabelos meio Esther Grossi, que falou um pouco, depois da projeção, sobre a tentativa de resistir com o tema ao mundo apressado em que estamos metidos. E o faz. Com maestria, apesar de o argumento ser bem adolescente, a menina roubada no trem que pede carona e viaja pela Alemanha com Tim. Acontece que Tim leva no caminhão uma vaca holandesa e o rumo destino é seu casamento que nunca vai acontecer. Uma sucessão de coisas engraçadas e insólitas no road-movie vai prendendo a atenção fazendo o tempo parar. Ganha pelo despojamento. A menina atrapalhada é Isabella Parkinson, brasileira com trabalho reconhecido fora da terrinha Global.

 Na seqüência, escrevo sobre o excelente “Vermelho como o Céu”, “O Batedor de Carteiras”, de Bresson, que me impressionou pela economia e sensibilidade e mais alguns que ainda assistirei.

Foi no dia 16 de janeiro de 2007. Lia a Zero Hora bem devagarinho, rítmo de praia, quando avistei a matéria sobre o Fórum Social Mundial no Quênia. Até ali, nada de muito inédito, umas ironiazinhas previsíveis sobre a pouca repercussão do evento no restante do mundo, sobre alguns gaúchos que lá participaríam e coisas dessa ordem.

Mas o veneno maior estava ao lado, a espreita dos menos avisados, intitulado “Para seu Filho Ler” em destaque num quadrinho bem definido:

” Fórum Social Mundial é o nome de um evento que reúne no início de todos os anos pessoas de vários lugares do mundo. Este ano, o local do encontro é Nairóbi, a capital do Quênia, um país que fica na África. É a primeira vez que o Fórum acontece no Quênia. Ele já foi realizado também na Índia, na Venezuela e principalmente no Brasil. O Brasil já foi sede de quatro edições do Fórum, e todas ocorreram em Porto Alegre. O Fórum também é famoso por ser um evento que é contra a globalização. Isso significa que as pessoas que participam do Fórum não gostam que países muito ricos, como os Estados Unidos, influenciem países mais pobres, como o Brasil. Por isso elas não gostam do Mc-Donald’s, por exemplo, porque o Mc- Donald’s foi criado nos EUA e hoje está espalhado por vários países do mundo”.

É! Deu na ZH!

Eu daria fragmentos de poemas, idéias de mar e vento na pele, pequenas sonoridades, a todas as pessoas, que em pelo menos um instante de suas vidas apressadas, imersas em sintonias solitárias, conseguiram sentir de verdade um travo na garganta, quando observaram os meninos do centro, atirados sob as marquises da economia informal, inchados de crack; eu daria pequenos pedaços de chocolate e generosas garrafas de vinho ao Fernando Pessoa, por tudo o que escreveu, enredado em seus heterônimos, sobre a Vida e o mais; eu faria agora um brinde para que no ano próximo mais pessoas pudessem ganhar meus singelos presentes…

Assim ganhei umas várias latinhas de Bavaria patrocinadas pelo “Churrasquinho” da Mary Mezzary hoje, véspera de Natal. Por acaso ouvia a rádio Ipanema, por acaso me deu vontade de participar, e como nos anos 80, quando a radio era super boa, escrevi.

…Ganhei o prêmio. Saúde!