Observo meu filho. Ele dorme há algum tempo. Como sempre, não escovou os dentes depois da janta. Resolvi, pelo menos hoje, não entrar em guerra com o garoto rebelde e a gorda placa de bactérias instalada comodamente em sua boca. Tem no rosto o início de um sonho, respira mais ofegante, mexe os olhos entre os grandes cílios e balbucia algo que não entendo (lembro de quando minha mãe dizia que eu falava muito enquanto dormia, talvez o fizesse porque tinha medo do escuro, dos estalos do madeirame da casa, do nada que me espreitava de dentro do travesseiro de penas de ganso, a fronha babada, talvez falasse para espantar o habitante da lua com quem mantinha uma relação de amor e pânico). Mas o papo é outro, meu filho continua o monólogo, agora em rítmo e intensidade de câmara acelerada. Identifico no meio do transe “não, não, não mata !” e ao escutar aquilo, assim implorado, eu me aproximo. Sinto-lhe o calor e o cheiro bom de criança dormindo. Deve me ter percebido, a proximidade do lábio que lhe diz: calma, filho, o coração disparado, meu cheiro, a conexão do primevo contato, a memória revisitada, enquanto vive sabe-se lá que terror,” não mata, não”. Rápido como um gato, alcança minha mão, sou um porto na tensão da história que é só dele.
Mão-na-mão, a coberta quentinha, a penumbra macia do quarto. Amanhece. Observo seus olhos, estão quietos, observo o menino rebelde que sente medo e pede carinho, observo-o crescer. Ele empunha a vida com a minha mão na dele, barganha um lugar no mundo e atravessa a ventania, descobre o sol depois do temporal, olha o horizonte de belíssimas cores e acorda quando o gato amarelo enrodilha-se junto a seu corpo na dobra do lençol.